sexta-feira, 29 de julho de 2016

Nó de gravata


Acorda, filha
Hoje é o dia da noiva
O déjà vu me tonteia
Quantas vezes visitei essa mesma cena?
Asfixiada, sei que me encarcerei
na sala da noiva do dia da espera
No castelo, um fantasma acorrentado
arrasta o tempo nas pernas
Tempo amarrado é tempo bom
para aplicar máscaras de pepino
E faxinar o fundo de todas as gavetas,
de acender a luz de cenhos obscuros
Depois, cem dias de banho de sono
e beleza. Três gotas de perfume cortam
o pulso e a jugular em pontos moluscos
Um beliscão na bochecha, um traço preto no olho.
O vestido branco, o mofo e tudo pronto.
E eu a indagar: o que faz o noivo
no seu tempo de espera? Amadurece? Vocifera?
Invoca a morte? Desiste?
Insere em seu gráfico o tamanho da dor
que provocou a minha ausência, assim espero.
Faz tabelas estatísticas de prospecção e diz que não,
o estrago foi maldito. Que ainda me quer muito!
Então se solta do mastro e vem ter comigo
Vem ter comigo no dia do amor impossível.
No dia do amor impossível, afundaremos juntos
Eu estrela-do-mar, ele alvéolo arrependido
por ter resistido tanto: a água tem mais veneno
para os que se afogam depois das tempestades
Depois das tempestades o amor está infectado
pelo mercúrio da fome, pelo chumbo da demora
Trazidos pelos dejetos do tempo...
Quase que ainda é hora, quase que já não é muito.
Há nuvens negras no céu agora. Nuvens que assustam.
E um vendaval arrastão de furtar cabelos
Estou quase pronta para o funeral do casamento
Que é o dia da espera numa realidade paralela
Mas pervertida: asfixia por gravetos na espuma
A morte come o tempo que não gira
Porque o dia do amor possível não dá trela
Para quem convalesce e em prece confere o velório
daquilo que não vinga...
Ta bem, mãe, vou tomar cuidado
para não amassar a traça do vestido
Ela está gorda da minha grinalda
Ela está grávida dos meus sonhos-rebentos
E o meu noivo, será que ainda demora muito
desfazendo seu nó de gravata?
Conformada, sempre espero...
Sempre espero.

Acorda, filha.

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