quinta-feira, 27 de abril de 2017

Repetição

O destino é implacável, é
repetitivo e ininteligível.
Mas no meu há uma placa
claríssima, onde está escrito:

"Desejarás o que não pode ser"

Não importando se o que não pode ser
atrai o desejo para o destino se cumprir
Ou se o que poderia ser é depois enfeitiçado
pelo ato de desejar para que não mais 
podendo ser 
tudo volte a ser 
como tem de ser:

                         Ser sem ser

Ou seja,
       só outro nome
              para o destino
                    de sempre desejar

Assim tem sido
Assim será

O destino é implacável, é
    

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Exercício

(Aqueles dias em que você está triste e assim mesmo tem de escrever um conto curto, provocado pelas canções que o professor colocou em aula)

Se eu morrer não chore não, é só a lua

Não sei por qual razão continuo a me inspirar nos filmes – desfaçatez disfarçada de criatividade. Valentina certamente não aprovaria, dizendo mãe pare com essa mania de velha regada a Casablanca e E o Vento Levou! Logo eu, que tenho pagado um preço alto para parecer original: tida como ridícula nos círculos sociais da minha idade, mal recebida nas baladas das mais jovens. Mais um motivo para tê-lo forçado a esse encontro - não quero vagar pelos desvãos da vida, despojada de pertencimentos. Daí a razão por encarcerar Marcelo em mais um dos meus tenebrosos arranjos cinematográficos.
Aquele enterro foi o ápice da peripécia: minha amiga Celina, de pé, abraçada ao marido. Seu cabelo, de tão desgrenhado por conta das horas insones junto ao pai enfermo, chegava mesmo a emitir um brilho verde, levemente o.v.n.i. O rosto, embora sulcado pelo cansaço, exibia a placidez daqueles poucos privilegiados, que ousam dizer à hora da morte de outrem: fiz tudo o quanto pude. Mas era uma dignidade escrita a quatro mãos: o marido a consolava junto ao peito e, no emoldurar do abraço, antevia-se a história costurada em décadas de convivência, ainda mais bem engendrada do que o cimento entrelaçando o caixão às tábuas e à terra. Não pude suportar tal visão, ela me feria como se eu, certo dia, me descobrisse humana, porém privada dessa constituição óbvia feita de cabeça, tronco e membros. Ali, diante daquele sepulcro, eu era toda feita de metades.
Metade sorte, metade azar - algo ainda mais misterioso do que divagar sobre um copo meio vazio ou meio cheio. Amigas eu tenho que reclamariam por não terem tido a mesma sorte que Celina: as azaradas dos derretidos tempos líquidos. Eu não! Eu tive a sorte. Marcelo me ama com a firmeza das sarjetas, chão duro a abrigar flores e atropelos. Nos primeiros anos do romance, a afinidade era tanta que entre nós coubera toda a história da arte e da filosofia. Às vezes, parávamos para saborear um poema novo, para conclamar uma visão política ou profética - atravessamentos nervosos entre um orgasmo e um beijo na boca. Afora um detalhe pequenino, mas de retumbância incômoda: Marcelo já era um homem casado quando o conheci, e pai de três filhos. Só eu que, apesar de ser mãe, estava livre. E mesmo assim porque, diante do fracasso do primeiro casamento, não me restara outra saída.
Foi por isso que, invejosa, decidi copiar o filme, ato que faria Valentina me dar nota zero por falta de originalidade. Tratava-se de uma história simples, sobre dois amantes que combinavam de se encontrar depois de muitos anos. Talvez buscando ludibriar o relógio, Marcelo concordou em estabelecer uma data para esse nosso avanço. A partir dali ele seria meu, todo meu, findados estariam os dias de disfarce e medo. Claro que floreamos um pouco, ninguém sai a marcar definições assim com frases medíocres do tipo: venha me possuir no dia três de abril de dois mil e dezenove. Marcamos para o primeiro dia de lua cheia depois do equinócio de outono e, por essas coincidências da vida, me dei conta que o dia recairia no terceiro aniversário de morte do pai de Celina. Depois de três anos de espera, o grande dia finalmente chega e eu aqui feito donzela tremendo de excitação na sala de beleza do dia da noiva.
Olho-me no espelho de soslaio e num breve lampejo vislumbro a noiva abandonada do romance de Dickens: ratos a mordiscar um bolo mofado, teias de aranha cobrindo o salão de bailes, enquanto traças fazem a festa num vestido puído. Tento afastar a cena. Volto ao filme – os filmes são sempre mais benfazejos do que os livros. Lembro-me de que o casal passeava tagarelando pela Europa e de que ela dançava para ele numa das últimas cenas. Sim, ficaram juntos! A espera às vezes vale à pena; o nosso caso será ainda mais lindo do que a Odisséia. Fazendo bico para passar o gloss rosa-perolado sussurro, sensualíssima: Chegou o dia! É hoje! Vem pra mim, vem, Ulisses!
Minha amiga telefona, atônita, mal sabe como me dar a notícia: essa coisa de rede social é foda. A esposa postara, ainda agorinha, fotos da família passando as férias na Inglaterra; pelo que ela disse, pareciam felizes. E eu, tão afeita aos rituais, preferira ficar uns dias sem trocar mensagens com ele, o único contato que preservamos durante estes anos todos. E, mesmo assim, com pouca freqüência. Coisa de mulher - dá mais gosto cobrar depois por cada quinhão de saudade contraída.
Mas é a esposa quem figura na foto com o Parlamento ao fundo: rainha absoluta. É ela quem tagarela de mãos dadas com ele pelas ruas européias. Não consigo pensá-la bonita, me causaria algum tipo de dano psíquico se eu assim me rendesse. Cabelos longos e escuros. Sorriso de menina. Mas eu sou aquela dos cabelos dourados, lembra? “Vento solar e estrelas do mar... Um girassol é a cor de seu cabelo?” – ele me perguntou um dia, cantarolando a música do Clube da Esquina. Ao que eu repliquei, provocativa: “Sol, girassol, vento, verde solar. Você ainda quer morar comigo?”  
Foi naquele dia que, rindo muito, combinamos tudo. Combinamos o que faríamos tão logo um plenilúnio coroasse o outono depois do equinócio. Prometemos que três anos de afastamento voariam como fadas e que este seria o tempo perfeito para que ele pudesse acompanhar os primeiros encantos das crianças.
 Mas nosso girassol despetalou como as folhas mortas que se arrastam pelo chão da estação, junto com sonhos e cabelos. Como a maquiagem que escorre agora denunciando o amor líquido e a má qualidade do rímel que borra sob a enxurrada do meu choro. A imagem da família feliz, da intimidade cultivada, dos filhos misturando os traços de seus pais e reproduzindo todos os seus trejeitos: a verdade é que o berço é amálgama tão forte quanto o túmulo cozinhado entre cimento, terra e tábuas. Tudo está acabado, penso, e, mesmo que para ele não esteja, não haverá modo de suportar tamanho abandono.
Porém, pensando no inverno vindouro, engulo o choro, deixo cair as últimas pétalas do meu orgulho e esboço uma mensagem: Oi, Marcelo. Tem uma lua linda de morrer lá no céu. Depois me pego cantando, baixinho, como quem suplica em prece:

          Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia!
Como vai você?
Você vem? 
Ou será que é tarde demais?




terça-feira, 25 de abril de 2017

Certas coisas

Certas coisas devem ser apanhadas frescas:

a umidade da madrugada retida num galho
as águas dançantes nas margens estreitas de um riacho
uma rosa ainda coberta pelo orvalho que o céu
da noite fez explodir no sereno de um orgasmo lunar...
e esse amor que guarda o toque cálido de um seio
deleitado pelo anseio de ser transformado em vida
(e desdobrado em mais e mais amor)

Certas coisas devem ser apanhadas frescas

Menos as nossas horas - que essas já se vão passadas -
são amas secas, frêmitos ressequidos, deusas desonradas
pelo tempo que as abandonou. São como o ramo de violeta
roxa africana que eu achei na página vinte e seis daquele
livro de sonetos da Florbela Espanca (talvez um Keats
apaixonado, quem me saberá dizer?)

Ah, já não importa!

Flores mortas viram marca-páginas como as nossas horas -
virginais senhoras, viúvas de um destino que as desdenhou.
Deixemos que as águas das letras póstumas as deflorem:
folhas e histórias sobrevivem nos resquícios do frescor...

Invoquemos as musas, aguardemos os aedos, porque
memória a qualquer hora há de cantar melhor
(tudo o que não fomos nós)

Agora tudo desordenha.
                                Desarvora.
                                              Definha de outonos.

Certas coisas devem ser apanhadas frescas.

domingo, 9 de abril de 2017

cornucópia

foi num domingo o nosso casamento sem igreja anel dourado sem bolo sem festejo aconteceu ali naquele corredor onde tudo o que é nosso nos desacontece era um corredor escuro calor dos infernos eu comprava um batom novo quando ouvi o teu chamado eu oscilava entre os alaranjados de verão e os tons avinagrados que sempre combinam bem com o outono da minha pele eu disse ele está me chamando! queria correr mas não tinha pra onde os deuses ainda não implantaram portais em shoppings centers daí fui para o carro busquei uma canção que me lembrasse você o que ficou fácil porque o baile não vem e a playlist só faz crescer e dançar mais e mais fantasmas mas tudo vibrava em volume tão alto que penso ter ficado meio surda senti náuseas queria respirar vomitar e não conseguia sufocava porém sabia eu sabia que naquele carro eu encontraria ofegante delirante o umbral metafísico que me jogaria no corredor dos postergados amores urgentes e sim entrei na câmara secreta inebriada pelo vinho da música que faz tua essência retumbar em cada poro do meu corpo tinto então era como se eu desvendasse o código do teu ser fazendo a leitura mágica dos aminoácidos mais íntimos com a ponta da minha língua até sentir um gosto forte de cravo-da-índia saltando das guaninas que se enroscavam nos vãos dos meus dentes o que veio depois não sei dizer porque é algo de uma ordem urgente que a linguagem não alcança mesmo nesse idioma ribonucleico que eu teimo em desvendar todos os dias em laboratório hiperanímico poderia dizer plenitude paixão mania privilégio bacanal amor êxtase ternura enlevação sublime afogamento sacrifício e nada seria suficiente eu poderia caprichar um pouco mais e dizer leite melado bico de seio teso jorrando em ductos ninar prazer abro a perna pra você grita meu cabelo recende madressilva embaraçado em tuas mãos adoro tuas mãos adoro tuas mãos teus dedos têm um ímpeto de arpejo eu percebo não de acordes clitóris teus olhos de demônio dizendo putaquepariu o que é isso? olhos de ódio porque prazer tamanho vicia a gente teu gozo quente jorra em minha língua escorregando garganta adentro o gosto do teu beijo com o gosto chupado das minhas águas íntimas e eu eu gosto do teu gosto com o meu gosto embora nunca tenha sentido mas eu gosto de você porque você me escorre como escorre o chocolate que minha saliva engrossou num cuspe leitoso delicioso belga chalé florido lua almofada xadrez lufada de vento um lobo uivou na floresta e o mundo acabou e as hortênsias desenham belezas num céu de inverno você me desce viscoso como fondue de chocolate ao leite com um pedaço áspero de maçã entupindo o espaço entre um canino e um incisivo e eu vampiro porque é um abuso é muito abuso muito abuso muito abuso muito abuso muito abuso você ser um e eu ser outro e a gente ter tanto trabalho pra se enfiar dentro da gente um no outro ainda assim ainda assim não seria suficiente... naquele momento amar você em pensamento era urgente como mamar a teta da minha mãe tendo no meu seio um dos meus bebês ou os dois com aquele cheirinho de caramelo que eles têm ao nascer no cabelo e um azedinho delicioso no pescoço enquanto você me acariciava o meio das pernas o polegar canibalesco bem no começo e um dedo médio metido no meio do fosso e me xingava e me beijava na boca e se cada espasmo do meu sexo ocorresse num tom acima nuance de azul abaixo subliminar subtom do sub-espectro um átimo de segundo depois da sugada ritmada que eu desse nela fazendo côro com a dos meus bebês pra que não sobrasse um mínimo espaço intervalo tempo sossego respiro descanso de prazer até criar o som dos arcanjos numa lira entalhada em alecrim e a frequência interestelar fizer apitar uma daquelas sirenes que disparam quando uma área de segurança máxima é invadida num filme americano então o mundo eletrocutasse até que chegasse o chefe dos extraterrestres e dissesse isso aqui de tão intenso ultrapassou o humano vai ter de morrer vai ter de morrer a policia demiúrgica não permite pois bem naquele domingo pensando em você eu ouvi a sirene e o mundo explodiu de tanto sentimento e nosso amor virou poeira cósmica os deuses mandaram vir o maior ventilador do mundo para garantir que os estilhaços do nosso amor se espalhassem por todos os universos paralelos porque as paralelas correm sem nunca se encontrar e isso é o que querem os deuses astronautas porque era muita ousadia que só a gente possa tomar a ambrosia numa telepatia explosiva todo dia uma telepatia todo dia todo dia e eles ficaram putos então eu sei que tem uma unha minha no japão e um fio da tua barba na nova zelândia que um molar teu incrustou no chão da lua e que um pedaço da minha orelha agora é peça no museu de plutão e não há ísis capaz de juntar todas os pedaços de osíris tudo é em vão e eu temo pelo nosso fim e pela nossa distância como temem todas as mulheres cujos maridos vão para a guerra ou para o mar você entende meu amor você entende agora como é legítima a dor de uma esposa que acabou de se casar no corredor escuro que lá no fundo mesmo que cegos a gente sabe que não passa de um depósito sujo de tudo o que fomos ou talvez um almoxarifado onde ficou guardado tudo o que nós seríamos se pudéssemos ser o que nunca fomos? entende? agora os ratos e os rolos de papel higiênico do almoxarifado espalham as suas pestes no mundo para nos punir e o pior é o que nos espera porque fomos tão longe de tão bonito e quem teve o vôo do ópio não pode voltar para o tédio da vida comum quem chegou no fim não pode querer ir além do fim porque não há fim além do fim e nós chegamos no fim nós contraímos núpcias volúpias cornucópias tão maravilhosas num dia depois que deus finalizou o mundo era domingo o sétimo dia e nem me venha dizer que deus descansou no sábado porque o que importa é que o domingo é o dia institucionalizado do descanso e nós ousamos reinventar o mundo com os nossos pensamentos um no outro e isso soou a deus como um zero na prova de engenharia para a qual ele estudou um absurdo e nós fizemos muito melhor veja só que bullying do inteligível e acho que o amor de deus é uma propaganda enganosa de coca-cola é só a cópia gasosa é só a cópia é só a cópia é só a cópia é só a cópia do nosso amor que de tão bom nem pode clarear o corredor para acontecer sensível e se todo apogeu marca o começo do declínio suspeito que o dia do nosso casamento foi o início do nosso definhar

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Depressão

O que é isto, doutor?
Esta brandura no tônus da alma?
Esta languidez de cama?
Esta flacidez de língua?
Esta desarticulação das palavras?
Esta poesia bamba?
Estas frases sem cartilagens?
Este descapricho, o que é isto?

O que é isto, doutor?
Este desafrouxo na garganta?
Estes cálculos nos rires?
Esta incontinência de lágrimas?
Esta exangue hemofilia?
Este orgasmo fugidio?
Esta constipação de cio?
Este sequestro de chão?
Esta hemorragia de escuridão?
Esta rota de descaminhos?

Na receita médica, só um carimbo!
Sequer uma linha remédica
de remendo ou explicação

E todo o desalinho
De um corpo desalmado
De uma alma desossada
Impresso nas ruínas invisíveis
Do labirinto do não

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Eu não quero morrer agora

Eu não quero morrer agora
Se eu morresse agora
Eu não morreria triste
Ou magoada
Morreria
Grata
No
Entanto
Enigmática...
É que a pergunta
No peito sufocada
Ressoaria por todos os
Nichos de todas as galáxias:

Por que o meu corpo não acompanhou
Mi
         Ni
                  Ma
                           Mente

Os voos altos ou os mergulhos profundos
Da minha alma enamorada?

Eu não quero morrer agora
Porque, sim, eu morreria clivada
É que não haveria sintonia fina entre
Os vermes me devorando toda a carne
E a bela recepção que me fariam no Hades

Que nada!

Eu não quero morrer agora!
Não quero que me levem embora
Aceito morrer de bom grado, nem ligo
Mas a minha modalidade será o suicídio

Só me atiro no precipício
quando meu enigma for decifrado
Relações entre infância e amores proibidos
Para mudar a maldição não têm servido...
Então, de que me serve o parricídio?

Quero uma resposta em definitivo
Para muito além do divã...
Daí, então, me dou em sacrifício!
Mas, antes disso:

Só me entrego se me édipo-resolvo
Só me atiro quando este desatino
de destino injusto já estiver deposto

Esfinge não finge a própria sorte
Esfinge só se atinge com respostas
Esfinge é monstro que não enfarta

E que questiona o transeunte,
a qualquer hora que ele passe

Sobre as transformações no corpo -
E o mistério do Homem...

Esse é o conhecimento que me falta
Por isso, não adianta, eu não quero
Morrer agora:

Só morro
Se farta

domingo, 28 de agosto de 2016

Noir

Nunca imaginei que eu um dia
trocaria o glamour de femme fatale
Pela alegria da mocinha no grand finale
Ou o cenário sensual de um filme noir
E o veludo negro e azul por um par

De translúcidas rosas de organdi

Agora a verdade transparece;
Veludos são como elefantes
Os brancos não existem aqui
E, se existissem, não flutuariam
Com graça num céu de amores

Filhos escuros da melancolia
São tristes os elefantes e atrozes
Os dramas do meu coração

Não me adiantam tomadas tensas
E desejos inspiradores.
Eu quero uma pele que se renda
E uma profusão
                             
                                   l  e  v  e
De cores
         Em tules
                  E flores
                         De seda

 Ofe (rendas)
     
                                        No ar

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Nó de gravata


Acorda, filha
Hoje é o dia da noiva
O déjà vu me tonteia
Quantas vezes visitei essa mesma cena?
Asfixiada, sei que me encarcerei
na sala da noiva do dia da espera
No castelo, um fantasma acorrentado
arrasta o tempo nas pernas
Tempo amarrado é tempo bom
para aplicar máscaras de pepino
E faxinar o fundo de todas as gavetas,
de acender a luz de cenhos obscuros
Depois, cem dias de banho de sono
e beleza. Três gotas de perfume cortam
o pulso e a jugular em pontos moluscos
Um beliscão na bochecha, um traço preto no olho.
O vestido branco, o mofo e tudo pronto.
E eu a indagar: o que faz o noivo
no seu tempo de espera? Amadurece? Vocifera?
Invoca a morte? Desiste?
Insere em seu gráfico o tamanho da dor
que provocou a minha ausência, assim espero.
Faz tabelas estatísticas de prospecção e diz que não,
o estrago foi maldito. Que ainda me quer muito!
Então se solta do mastro e vem ter comigo
Vem ter comigo no dia do amor impossível.
No dia do amor impossível, afundaremos juntos
Eu estrela-do-mar, ele alvéolo arrependido
por ter resistido tanto: a água tem mais veneno
para os que se afogam depois das tempestades
Depois das tempestades o amor está infectado
pelo mercúrio da fome, pelo chumbo da demora
Trazidos pelos dejetos do tempo...
Quase que ainda é hora, quase que já não é muito.
Há nuvens negras no céu agora. Nuvens que assustam.
E um vendaval arrastão de furtar cabelos
Estou quase pronta para o funeral do casamento
Que é o dia da espera numa realidade paralela
Mas pervertida: asfixia por gravetos na espuma
A morte come o tempo que não gira
Porque o dia do amor possível não dá trela
Para quem convalesce e em prece confere o velório
daquilo que não vinga...
Ta bem, mãe, vou tomar cuidado
para não amassar a traça do vestido
Ela está gorda da minha grinalda
Ela está grávida dos meus sonhos-rebentos
E o meu noivo, será que ainda demora muito
desfazendo seu nó de gravata?
Conformada, sempre espero...
Sempre espero.

Acorda, filha.

sábado, 23 de julho de 2016

Essa sina

E como lidar com
a maldição sinistra
Dessa Fúria assassina
Que me assina uma
sina maldita por eu
ser assim excessiva?


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Palavricídio

Aquele momento jogo-da-verdade
em que você olha de um deck privilegiado
nessa porra de vida privilegiada que tem,
às custas sei lá de quem
e vê a natureza lá embaixo, linda,
pulsando um verde que ela refaz todos os dias
mas você nem mesmo uns azuis
E crê que também é uma flor como aquela
amarela que está perto da bananeira
E alucina que mesmo já bem desamarelada
oferenda palavras à natureza como dom
porque acredita que as palavras
são sua oferenda de nascença
sementes ancestrais
mas conclui que não.
Daí a flor amarela te diz não se ofenda,
mas, na boa, o seu tempo já passou.
Então, te joga pólen na cara indagando
Quantos óvulos você ainda tem?
E então você olha pra sua barriga e se encolhe
E diz meus óvulos são as minhas palavras
mas a flor afirma que todos eles venceram
e devem ser consumidos em até três dias úteis,
caso contrário,
não constarão da lista do Pão de Açucar
por excesso de reclamação
Daí você vai no bate-boca dizendo
tenho meus filhos, meus sonhos, tenho um futuro
E então um abutre cruza o caminho
E arrota um cheiro azedo de mentira que corrói
E você explode dizendo queria morar no Japão
Lá as flores amarelas são mais reverentes
Lá elas consentem que a velhice é
por demais sensacional. Mas daí você
entende que a sua terra natal é feita de sabiás
e apreço sobrenatural por belezuras joviais
E então chora três lágrimas que
não são de crocodilo mas secam antes de cair.
E diz amém à profecia da flor amarela
E vomita todos os amores
que sabe que seu útero
nunca vai voltar a gestar
E vomita todos os homens que
a sua pele não vai dar conta de sustentar
E vomita todas as maldições que fazem
esta profecia se concretizar.
Puta que pariu.
E vomita essa rima irritante e infinitiva
E todas as palavras que ela carrega
porque percebe que elas são donzelas e
foram criadas para estar no mundo
de Camões e não neste aqui
Dai você tem ódio das suas delicadezas
e queria ser áspera e ter a pele negra
e ser empregada doméstica, lésbica ou transexual.
E ser tratada feito Geni à pedra e merda
Mas não é. Súbito, lembra que pela manhã
cogitou adotar uma criança síria, depois desistiu.
Porque se vê como a mancha da banana,
melanoma, metástase de seu tempo,
do tempo que ainda habita, mas que já passou.
Não o tempo, só mesmo você.
Então chora mais vinte lágrimas passadas
e se ressente profundo porque o mundo
é das mães dos bebês de um aninho
dos poemas moderninhos
que chegaram antes e levaram o elogio e o amor
que eram para ser seus. E nunca serão.
E tem remorso de ter acreditado
em teorias mentirosas sobre desenvolvimento
e ficar esperando a revelação do que veio
fazer aqui. Vê que seus mestres estão obsoletos
e que a arbitrariedade é um deus que você
jamais saberá cultuar.
Procurando a fé no cesto, jura que
deus é só mesmo um nabokov disfarçado de zumbi
te chicoteando e dizendo que você não é lolita,
é anna Karenina ou mrs. Dalloway
Que carrega no peito o estigma - a letra escarlate
diz esta mulher não presta (mais)
Tampouco prestam os seus versos cheios de adjetivos
e adjuntos adverbiais. E ritmos e métricas
que gostam de fazer pose à revelia da anarquia
que lhes foi exigida aos murros no computador
E então, em agradecimento e prece
Você acha que deve se jogar do deck
E bosta de rima que me persegue
Mas olha bem no fundo do olho da mata
E ouve uma gargalhada vinda
ou da flor amarela ou do demônio da caverna,
tanto fez como tanto faz,
dizendo não insista em virar fóssil.
Não estrague os ouvidos da mata
com o estalar grosseiro da sua queda,
porque fóssil você já é.
Então diz não quero voltar para o quarto da vida
Lá não tem um lugar pra mim.
E se o meu facebook disser o contrário
Não o ouça: ele mente e vai explodir
Sou tão infeliz que decidi ficar para
sempre neste deck até morrer de frio
Se nem cair eu posso, Celsius, meu amor,
caia (sobre mim) só para que eu possa
 - e o mundo agradeça-
finalmente eu me livrar
de mim

domingo, 26 de junho de 2016

Floema Triste


Seiva era uma menina muito da oferecida que queria
trepar na árvore e ser chupada de canudinho, fluindo,
caule acima, desde antes do vocábulo amanhecer
até o cair da rima morta anunciando a meia-noite
(rumo às soluções de um difícil xilema com o Tempo).
Apaixonada, sabia que se subisse num ritmo trepadeiro
desabrocharia copa intumescida e o-flertaria flodes para
o seu homem-sol, em fotossíntese. Preliminares de amor,
estrofes lascivas, refrões cheios de suor, ritmo insistente,
até a redondilha do prazer fazer o gemido dele gozar pólen.
Mas tanto esperou que, antes do pôr-do-sol, despencou.
Cachoeirou-se nos versos livres de um floema triste...
Daí, entalou crispada, ficou doente, viu a terra virar ralo.
E chorou o The End de amor no funeral do seu nectário.

Hoje é floeta morta:

A força gravitacional da Raiz dele fez poesia ainda mais forte.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Erro de entrega

                                         Oh, tenha dó
                                          Neste puxa
                                           e repuxa
                                         Sou eu quem?
                                         Morre de ah!
                                         Mores na tua
                                          Cela de (pu)
                                              Dores.
                     Ciúme dessas que um dia te tiveram:
                 Carne exposta em mercados anti-sanitários,
               em sanatórios a céu aberto. No meu, tu igrejas!
             E o pão, quando hóstia, não molha minha língua
            em sacros testículos, só em beatos mandamentos
                                        Cruz e ridículos
                                           testamentos
                                          Carne exangue,
                                           gruda no céu
                                             (da boca)
                                          Tem gosto de
                                           cimento e de
                                              plástico
                                           Oh!tenha dó
                                          Erro de entrega
                                           Canibal sou eu
                                             As santas

                                              são elas

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Socorro

Pesco o fóssil do amor no fundo do mar e berro (de dor)?
Soco o osso da dor no oco do peito para enterrar (o amor)?
Deixo o pesar ressoar no eco do berro e só espero (passar)?
Revolvo a saudade, e dai devolvo o peixe do amor (ao mar)?

Entre os enterros e as pescarias, entre o luar e o mar revolto
Garrafas mensageiras vagueiam à deriva... E suplicam
Pelo fim do milagre da multiplicação das dúvidas.

Não sei se é fresco ou se é fóssil. Se sendo foi-se ou, se feto, virá
Não ser se tarde ou cedo. Se cedo ou ardo. Se alardo ou calo.
Se surdo. Não sei se vivo ou morto. Se fico ou se corro.
Só morro. Não sei se choro ou coro. Se quero. Só quero!
Mas temo. Soterro.
Socorro