quarta-feira, 20 de junho de 2018

Ponto cruz

Cansei de ser o ponto de bordado
que enfeita a mesmice dos teus dias
A linha amarela num vai e volta
para preencher um miolo de flor
e que noutro momento vira raio de sol 
vira raio de íris vira raio no céu
vira o laço do sapato no traçado
de alguma camponesa bonita

Enquanto isso, teus almoços em família:

A toalha branca manchando de molho
manchando de vinho manchando no riso
das mãos achocolatadas dos teus filhos
E sendo lavada, secando ao sol no varal, 
retornando à gaveta sempre alvíssima

Há que se renovar o bordado, você diz,
um olho em mim e outro pregado 
na fazenda cândida da tua vida

E logo me insere num desenho natalino:
a linha vermelha sendo repuxada 
numa bola dourada dependurada 
no centro de uma guirlanda de azevinho

Não é o vaivém do bordado que me esgota
Até gosto de me saber o contraponto
colorindo o branco das tuas horas infindas

Mas a eternidade tediosa dos domingos, 
amor, a eternidade tediosa dos domingos, 
amor, a eternidade tediosa dos domingos
- como a falta dela me faz pequenina!

sábado, 9 de junho de 2018

Desapego

Desemaranhei os meus pensamentos
com o pente desdentado das tuas ausências
Mandei exterminar os pomos e as luxúrias:
apaguei nosso banquete da linha do tempo
Vesti um farrapo, atirei ao chão o vestido e,
com ele, as letras, os castelos, os laços de fita
A teu pedido, caprichei nos amoricídios.

Nosso ato funerário não foi triste. 
Pelo contráio, esquartejar pode ser sublime
- rito alquímico do desapego
Recobrimos com flores as tuas hesitações
que agora convergem felizes para o mar
como as águas leitosas de um rio sem refreios

Passaste triunfante pela estrada
e eu pude ler a tua mente branca de mim.
Anônima, senti orgulho virtuosíssimo:

O amor quando acontece é tão bonito
que goza nirvanas onde o desejo
só clamava por fogos de artifício



terça-feira, 5 de junho de 2018

Colheita


A vida feita de guizos, o ruído mecânico
rasgando o silêncio secreto do mundo
Labores contínuos
afazeres que não se adulam
mas sustentam a fé cega no sentido inequívoco dos dias
O tecido de que é feito o sonho todo esgarçado
nos esforços suplicantes do cotidiano.
Religião de semeaduras.

Então, eis que: a colheita compartilhada!
A urgência devorável dos sumos
No céu da alma, uma nesga se abre e revela
a festa oculta sob a constelação do laborioso
Sorrisos exaltam abraços. Urge a orgia:
o tempo do desfrute é imperioso.

Mas o coração sabe que o rito será eterno
(só no hoje)
Quem suportaria a sustentação do êxtase
sem desconfiar da morte vindoura?

É lindamente exato o tempo dos encontros.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Ateliê

Homens que amei
e que nunca serão meus:
tomem a ponta do novelo
criem nós intrincados
desfilem os seus enredos

Quem sabe na súbita sutura
de sabê-los felizes
ou na ruptura de um fio
esticado ao extremo,
eu possa, quem sabe,
negar-me ao apelo
de ir burilar
com as mãos sujas do incesto
os tubos de tinta
orvalhados 
na madrugada musga 
do meu pai

Estarei assim liberta do encargo espectador
dessa insuportável obra de arte que é amar?

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Malmequer

Não é fácil estancar o impulso do corpo:

A boca procurando pela boca ausente
O peito ardendo pelo peito já distante
A língua ressecando-se no chamamento
insano e sibilante da procura inútil

É implacável o deus que outorga o direito
da impenetrabilidade aos mortos:
alvos leucócitos combatendo o sepulcro
ânsia febril pelo fantasmagórico...

Depois, voltar insone ao travesseiro
refazer os cálculos na matemática do acaso
resgatar a fé nas insignificâncias do impossível
despetalar probabilidades, destinos, destroços

Margaridas de sobreaviso, o malmequer do outro
desconstruindo o bem querer dos entremundos.
“Não era para ser, não era para ser” -
a confusão aproveita o ensejo mântrico
para dizimar o duvidoso

Despetalada, eu pergunto:

Não era pra ser mais cheia de sol
Não era pra ter menos sumo de dor
Não era para transmutar-se em rubro
a gema ocre dessa flor chamada desejo?


terça-feira, 29 de maio de 2018

Eva

Tiro as minhas garras desta maçã.
Esta com a casca estriada,
um furo putrefato perto do cabo
e odor agridoce, mas, ainda assim,
suculenta.

Depois, olho-a,
não sem saudade, enquanto
observo as minhas unhas lascadas
- malva era o nome do esmalte -
procurando outras carnes

Entre as pernas, meia dúzia
de poemas prematuros
Na vigília das entressafras,
nas fendas dos entrepartos
a chance da serpente liberar
a vítima
que não me será proibida



segunda-feira, 28 de maio de 2018

Fragmentos

E como aconteceu de você implantar uma
semente de prudência no
ventre da minha compulsão eu
jamais saberei. Antes tão verborrágica agora
sofro contração de sílabas as
palavras não crescem inteiras e
quando nascem não são embriões reconcilia-
tórios, pedidos de volta, ritos de
comunhão, prosa casamenteira, têm,
na aparência, a
inteireza ilusória dos cardumes
unidade entre-
-cortada pelo
uníssono cáqui das águas
pontilhagens de rede, grãos
de areia escorrendo entre os dedos para
formar um banco compacto no chão
(mas a coesão do banco é mentira)
corpo platelminto de desejos que agora eu
faço parir por solavancos de ruideza
mínima
aborto em muitos atos, orquestra em es-
pasmo, frações de matemática
(falo contigo como fala a tênia ao para-
sitado, em fragmentos)

Você cortou as patas do meu leão
Extraiu os dentes da minha fera
Engravidou com sêmen de dispersão
(e certa feiúra e nojo) o meu poema
E eu serei eternamente grata a você.
Mas só por isso.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Inércia

Como eu deixei de te amar?

Pensa num trem
ou num carinho de rolemã,
numa jogatina de roleta
Pensa num carrinho de ferro
da tua coleção de menino
em outro veículo qualquer
Então, imagina acidentes:
atropelos, colisões, engarrafamentos,
escorrimentos de secreção vaginal
lágrimas e sangue tomando toda a pista.


Agora recorda um filme de terror.
O mocinho desconhece o inimigo
Dá tiros no escuro
Troca lances de espada com o invisível


Assim também o carrinho colidiu no vácuo
E parou.
O perito atestou: perda total


Na lei da inércia
(tudo anda ou fica parado até que nova paixão interceda)
nem tudo está previsto, tudo é relativo.


Eu deixei de te amar?
Força maior também se chama vazio.

Quem formulou isso foi Einstein,
foi Espinoza
ou foi Newton?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Decantação


O poema decantando sobre a página
O vinho decantando sobre a mesa
Eu, sedimento em progresso, mergulhando,
mergulhando no suporto imenso do teu abismo
Nem tocamos no jantar, as ostras ainda estão lá
esperando pelas línguas que esperam o vinho
(decantar) para poderem, então, cantar o poema

Ainda estão lá os pêssegos
Resquícios de uvas ainda se assentam

O meu nado deu em nada
Mergulho raso de contratempo:
o tão fundo era tão perto
teu imenso, tão pequeno

Não sei bem para quem, mas acho
que o poema já pode ser servido

domingo, 25 de março de 2018

Veladuras

Um novo amor vai chegar, eu sei disso.
Não porque eu deseje
Não porque isso me interesse,
mas porque a minha poesia está doente
e é preciso. Há pigmento em demasia.
Saturação é um diagnóstico artístico
criado para nomear a compulsão sexual
que as tintas revelam ao se depositarem
loucamente umas sobre as outras?
A minha poesia está cheia de grânulos amorosos
Miasmas impregnando cores impregnadas
sobre um papel impregnado que,
sendo originalmente branco,
poderia receber outros registros

Poderia, por exemplo,
debulhar as campânulas, associá-las
aos sinos do campanário
explicar o silêncio gradativo de suas súplicas
suas agudezas dominicais

Poderia falar sobre o palácio das joaninhas
sobre a entediante vida dos minérios seculares
sobre as rugas dos elefantes
até mesmo sobre amores
(renováveis)


Mas as veladuras são fastidiosas
Mas a paisagem é asfixiante
Nuvens passadas que não passam
nem se chamam
Tempestades que se repetem, nomes
que se repetem, nomes, nomes
que não chovem