quinta-feira, 19 de julho de 2018

Tortura glaçada

(Texto de prosa poética a ser publicado na antologia do Instituto Vera Cruz)

Quando ele abriu a porta da pocilga em que a mantivera presa por anos, ela não se assustou, nem chorou, nem riu. Em resistência imóvel, apenas contraiu de leve os olhos ulcerados pela escuridão, agora profanados pela luz que entrava. Ela já não parecia ter ganas de trucidar, como só lhe restara fazer com os ratos intrusos no passado, tamanha a solidão em que fora encarcerada; já não cedia ao impulso de fugir, acabando apenas por se debater entre as paredes, pois nunca cedera à ideia de cavar um túnel com as próprias unhas, que  se lixariam sem manicure até o esfacelar dos ossos. Nada. Tudo era cansaço, apenas.
Esperou o raio de sol inundar seu cérebro, a intensidade da luz apaziguar e a visão voltar, minimamente. Então, como se andasse em câmera lenta, abaixou-se para apanhar o xale sobre a cama e, utilizando-o, apagou minuciosamente as anotações que fizera na parede, tão íntimas e ainda recendendo à dor uivante. Depois, com calma ritualística, dirigiu-se à porta. Ao passar por seu algoz, encarou-o sem muita empáfia: o desejo de vingança fora marinado com o sumo azedo da humilhação postergada. Viu seu rosto rude, mas, dessa vez, não prestou tanta atenção: seus traços estavam pra lá de memorizados, caso, no futuro, decidisse fazer denúncia e retrato falado. Um passado inteiro a entrelaçá-los fazia conhecida cada célula daquele corpo horrendo, um passado que começara muito antes do dia fatídico em que conhecera o cárcere. Sem encará-lo, apenas notou com desdém o resto de comida que grudara no canto de sua boca, feito herpes bolhuda. Ao breve encontro dos olhares, ele respondeu deixando escapar um grande arroto, e um cheiro de lixo podre inundou o cativeiro. Comera até fartar-se, tanto a ossatura de sua alma, quanto o frango a passarinho do almoço, enroscando a língua em cada ossículo que encontrava. Quanta perversão naquele miserável!

Durante anos, ele assistira, até empanturrar-se, à cena cômica da moça debatendo-se contra as paredes da vida a dois, em pleno espetáculo de desespero inútil. Por três vezes ela escapou, por três vezes foi  recapturada à força, à base de porradas. No entanto, ela estava livre agora; até mesmo com certo amor ele a fitava.

Gozado de tortura, ejaculado de perfídia e deleitado com o show de horrores que ela protagonizara (como num banquete medieval onde se come, se dança e se trepa, enquanto se assiste às apresentações dos trovadores), ele agora era pura doçura, todo inclinado a sobremesas, gentilezas, licores e bombons caramelados. Todo inclinado ao glacê do divórcio. Depois da árdua temporada de maus tratos, a liberdade dela era o camafeu que ele lhe oferecia como lembrancinha de festa. Ímãs de geladeira, bem-casados, saquinhos de filó com amêndoas: suvenires que se oferecem em agradecimento ao divertimento compartilhado.

Ela, porém, estancou, ainda muito rente à porta.

Fuga bem-sucedida, morte por inanição ou assassinato do carcereiro: esses troféus a teriam devolvido dignamente o registro do existir. Mas a liberdade da qual ela viria desfrutar fora oferta dele, da piedade ou da maldade dele. Se ela agora apenas saísse de seu claustro invisível e voltasse à vida, seria como se ainda estivesse sob seu comando, toda sua desventura perderia o caráter heroico, nenhuma honradez lhe sobraria e as mágoas contraídas não poderiam sequer ser narradas. Era necessário ter sido a conquistadora de sua própria liberdade! Mas, se assim a tivesse beneficiado a sorte (já que de sua própria volição tudo tentara), provavelmente ele continuaria a persegui-la até que a morte os separasse. Há certas situações na vida para as quais a própria vida é uma inimiga, pensou, ansiando verdadeiramente que a visita derradeira viesse solucionar aquele impasse.

Permaneceram olhando um para o outro, aprisionados, ambos, no corredor que empurra ao beco sem saída, embora a porta estivesse aberta e a vida prosseguisse, sôfrega. E por toda a extensão da hora eterna, porém imprópria, se puseram a ponderar sobre a perversidade do amor.

Ela finalmente estava livre. Mas só porque ele estava farto.


quinta-feira, 12 de julho de 2018

À imagem e semelhança

Não mais a boca em movimento
mas as pálpebras cerradas
Não mais o espasmo que se espaça
mendicante prazer intervalado
não mais o orgasmo 
mas o silêncio surdo e o sono farto
O racionamento das células
O esforço mínimo da casa, eu
acho que os telhados respiram, você
também perscruta o arfar invisível dos telhados?
Não mais a escravidão da espera -
rota interminável de sístoles e diástoles -,
mas a hemorragia esguia e sinuosa
por onde o que é vital me escapa

Não sei se a vida de repente me pareceu insensata
ou se foi o porvir da morte que,
num sussurro já não mais tão longínquo,
me fez súdita fervorosa da imobilidade
das árvores

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Paranoia

A saúde mental consiste
(se é que ela existe)
em manter-se na vala
do limite
que separa dois mundos:

Do lado de cá, hipóteses categóricas
como juramento matrimonial
Do lado de lá, decifrações consumadas
feito o falo flácido depois do sexo nupcial

No antepasto da linha divisória,
o anticlímax do gozo adiado
aposentadoria de lupas detetivescas
recusa às minúcias, aos fiapos

Mas como dói suportar
o zoar das moscas no pensamento!
Reverberações de enigmas grandiloquentes
caso deposto em arquivamento

(Infelizmente)
só se pode ser saudável onde
demônios abandonados andam
de bar em bar 
e se queixam bêbados num balcão
de mármore travertino
solteiros como a azeitona verde
perdida num dry martini

terça-feira, 10 de julho de 2018

Sufoco


Desmembro a palavra saudade
e faço com ela bricolagem:
sacanagens, origamis,
aviõezinhos de papel
Estanco o fluxo do dá
Aprisiono a súplica do dê
Mas é sobre o repasto do sal
assim incorretamente escrito
(em mim o pontiagudo sempre
se sobrepôs ao sorriso)
que eu me sento para lamber feridas
cicatrizar memórias de patas rasgadas
transmutar a dor em lágrimas
curar os ímpetos de regresso
Banho de mar alivia
as mágoas depositadas
nos dejetos salgados das vísceras
Semelhante cura semelhante -
dessa premissa é feita a poesia

Mas esse L intruso na saudade
É saldo antigo que não se afiança
Esse L intruso me asfixia
me engasga me sufoca
me perfura
feito um ossinho de galinha
atravessando a garganta

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Prece

Quando eu me punha a rezar:
“Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu”
imaginava que Deus
se me aparecesse
seria como um ciclone gigante
devastador e poderoso
pintando no céu uma aquarela de manchas negras
ou um tsunami
que me deixaria boquiaberta e fascinada:
rainha naja de íris violeta
e retinas adulteradas

Agora, acho que essa tal vontade de Deus
que pisoteia a minha como se ela fosse barata
é apenas uma entidade chamada “o outro”
que, com seu soprinho mixuruca,
brada, cuspindo:

Não importa o que queres que eu seja,
não importa a beleza que para mim reservas,
o meu reino é meu e a minha vontade é minha.

A esta obviedade irritante, prefiro as tempestades cinematográficas.


terça-feira, 3 de julho de 2018

Cio de outono

Que os olhos não se deixem enganar
pelos dourados do outono:
o sol mais ardido, o fruto ainda maduro.

Nem por isso o chão de ardósias
sacrifica ao calor o frio toque azeitonado
de seus cinzas
Nem por isso bastam às bocas
o sumo fresco das tangerinas
Até mesmo as margaridas trazem
ao redor da gema
o estigma dos descasamentos:
a coroa amarelecida de grinaldas vencidas

No ventre da estação cresce
(em mentirosos tons terrosos)
o inverno indômito
saltam do tempo as mãos corrosivas
do elemento sulfúrico
do implacável fator corruptível do mundo

Mas a presença desta gata no cio
suplicando a visita da lua na casa
alucinando crias e amores
onde eu antevejo o envelhecimento dos fios
invade os meus ouvidos como
se desconhecesse a obliquidade dos raios como
se não notasse a perversidade com a qual a natureza
tece o gélido e o abandono em ritmo furioso

Ignorante dos descompassos
alguém entreabre a porta e indaga:

Mas, afinal, essa gata mia ou chora?
É chamado derradeiro ou vigoroso,
é feito de sofrimento ou de assombro,
de voracidade ou de cansaço
esse amor desesperado de outono?


domingo, 1 de julho de 2018

Fala

De tudo em você, me recordo da voz
ainda mais que do nariz:
seu serpenteado, seu timbre, seus chiados
seu ritmo.

Usaria a sua voz para profanar uma catacumba
a tomaria emprestada para conjurar qualquer malefício
Para abrir o meu chakra alaranjado
Para pulverizar uma chaga
Para proferir o abre-te sésamo

Agora me diz:
em que outra pele de tambor ela vibra?

Pergunta que não se aquieta
Dúvida que me cala
Espírito úmido que me escapa
Como naquela música:

Fala.
Fala. 
E então, eu escuto.

sábado, 30 de junho de 2018

Sem vestígio


Ora, mas pra que tanto alvoroço?
Fui até a esquina ver se alcançava o fio
                        - solto -
puxado da franja do teu vestígio vermelho
se pisava nele, salto abrupto
ver se assim resgatava o ultraje inteiro
se o vestia de novo
então tomava uns calores de começo
ganhava uns lilases chupados no pescoço
mas perdi o fio à meada
fui e voltei
desnudada de voltas

sábado, 9 de junho de 2018

Desapego

Desemaranhei os meus pensamentos
com o pente desdentado das tuas ausências
Mandei exterminar os pomos e as luxúrias:
apaguei nosso banquete da linha do tempo
Vesti um farrapo, atirei ao chão o vestido e,
com ele, as letras, os castelos, os laços de fita
A teu pedido, caprichei nos amoricídios.

Nosso ato funerário não foi triste. 
Pelo contráio, esquartejar pode ser sublime
- o rito máximo do desapego
Recobrimos com flores as tuas hesitações
que agora convergem felizes para o mar
como as águas leitosas de um rio sem refreios

Passaste triunfante pela estrada
e eu pude ler a tua mente branca de mim.
Anônima, senti orgulho virtuosíssimo:

O amor quando acontece é tão bonito
que goza nirvanas onde o desejo
só clamava por fogos de artifício



terça-feira, 5 de junho de 2018

Colheita


A vida feita de guizos, o ruído mecânico
rasgando o silêncio secreto do mundo
Labores contínuos
afazeres que não se adulam
mas sustentam a fé cega no sentido inequívoco dos dias
O tecido de que é feito o sonho todo esgarçado
nos esforços suplicantes do cotidiano.
Religião de semeaduras.

Então, eis que: a colheita compartilhada!
A urgência devorável dos sumos
No céu da alma, uma nesga se abre e revela
a festa oculta sob a constelação do laborioso
Sorrisos exaltam abraços. Urge a orgia:
o tempo do desfrute é imperioso.

Mas o coração sabe que o rito será eterno
(só no hoje)
Quem suportaria a sustentação do êxtase
sem desconfiar da morte vindoura?

É lindamente exato o tempo dos encontros.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Ateliê

Homens que amei
e que nunca serão meus:
tomem a ponta do novelo
criem nós intrincados
desfilem os seus enredos

Quem sabe na súbita sutura
de sabê-los felizes
ou na ruptura de um fio
esticado ao extremo,
eu possa, quem sabe,
negar-me ao apelo
de ir burilar
com as mãos sujas do incesto
os tubos de tinta
orvalhados 
na madrugada musga 
do meu pai

Estarei assim liberta do encargo espectador
dessa insuportável obra de arte que é amar?

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Malmequer

Não é fácil estancar o impulso do corpo:

A boca procurando pela boca ausente
O peito ardendo pelo peito já distante
A língua ressecando-se no chamamento
insano e sibilante da procura inútil

É implacável o deus que outorga o direito
da impenetrabilidade aos mortos:
alvos leucócitos combatendo o sepulcro
ânsia febril pelo fantasmagórico...

Depois, voltar insone ao travesseiro
refazer os cálculos na matemática do acaso
resgatar a fé nas insignificâncias do impossível
despetalar probabilidades, destinos, destroços

Margaridas de sobreaviso, o malmequer do outro
desconstruindo o bem querer dos entremundos.
“Não era para ser, não era para ser” -
a confusão aproveita o ensejo mântrico
para dizimar o duvidoso

Despetalada, eu pergunto:

Não era pra ser mais cheia de sol
Não era pra ter menos sumo de dor
Não era para transmutar-se em rubro
a gema ocre dessa flor chamada desejo?


terça-feira, 29 de maio de 2018

Eva

Tiro as minhas garras desta maçã.
Esta com a casca estriada,
um furo putrefato perto do cabo
e odor agridoce, mas, ainda assim,
suculenta.

Depois, olho-a,
não sem saudade, enquanto
observo as minhas unhas lascadas
- malva era o nome do esmalte -
procurando outras carnes

Entre as pernas, meia dúzia
de poemas prematuros
Na vigília das entressafras,
nas fendas dos entrepartos
a chance da serpente liberar
a vítima
que não me será proibida



segunda-feira, 28 de maio de 2018

Fragmentos

E como aconteceu de você implantar uma
semente de prudência no
ventre da minha compulsão eu
jamais saberei. Antes tão verborrágica agora
sofro contração de sílabas as
palavras não crescem inteiras e
quando nascem não são embriões reconcilia-
tórios, pedidos de volta, ritos de
comunhão, prosa casamenteira, têm,
na aparência, a
inteireza ilusória dos cardumes
unidade entre-
-cortada pelo
uníssono cáqui das águas
pontilhagens de rede, grãos
de areia escorrendo entre os dedos para
formar um banco compacto no chão
(mas a coesão do banco é mentira)
corpo platelminto de desejos que agora eu
faço parir por solavancos de ruideza
mínima
aborto em muitos atos, orquestra em es-
pasmo, frações de matemática
(falo contigo como fala a tênia ao para-
sitado, em fragmentos)

Você cortou as patas do meu leão
Extraiu os dentes da minha fera
Engravidou com sêmen de dispersão
(e certa feiúra e nojo) o meu poema
E eu serei eternamente grata a você.
Mas só por isso.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Inércia

Como eu deixei de te amar?

Pensa num trem
ou num carro de rolemã,
numa jogatina de roleta
Pensa num caminhão de ferro
da tua coleção de menino
em outro veículo qualquer
Então, imagina acidentes:
atropelos, colisões, engarrafamentos,
escorrimentos de secreção vaginal
lágrimas e sangue tomando toda a pista.


Agora recorda um filme de terror.
O mocinho desconhece o inimigo
Dá tiros no escuro
Troca lances de espada com o invisível


Assim também o carrinho colidiu no vácuo
E parou.
O perito atestou: perda total


Na lei da inércia
(tudo anda ou fica parado até que nova paixão interceda)
nem tudo está previsto, tudo é relativo.


Eu deixei de te amar?
Força maior também se chama vazio.

Quem formulou isso foi Einstein,
foi Espinosa
ou foi Newton?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Decantação


O poema decantando sobre a página
O vinho decantando sobre a mesa
Eu, sedimento em progresso, mergulhando,
mergulhando no suporto imenso do teu abismo
Nem tocamos no jantar, as ostras ainda estão lá
esperando pelas línguas que esperam o vinho
(decantar) para poderem, então, cantar o poema

Ainda estão lá os pêssegos
Resquícios de uvas ainda se assentam

O meu nado deu em nada
Mergulho raso de contratempo:
o tão fundo era tão perto
teu imenso, tão pequeno

Não sei bem para quem, mas acho
que o poema já pode ser servido

domingo, 25 de março de 2018

Veladuras

Um novo amor vai chegar, eu sei disso.
Não porque eu deseje
Não porque isso me interesse,
mas porque a minha poesia está doente
e é preciso. Há pigmento em demasia.
Saturação é um diagnóstico artístico
criado para nomear a compulsão sexual
que as tintas revelam ao se depositarem
loucamente umas sobre as outras?
A minha poesia está cheia de grânulos amorosos
Miasmas impregnando cores impregnadas
sobre um papel impregnado que,
sendo originalmente branco,
poderia receber outros registros

Poderia, por exemplo,
debulhar as campânulas, associá-las
aos sinos do campanário
explicar o silêncio gradativo de suas súplicas
suas agudezas dominicais

Poderia falar sobre o palácio das joaninhas
sobre a entediante vida dos minérios seculares
sobre as rugas dos elefantes
até mesmo sobre amores
(renováveis)


Mas as veladuras são fastidiosas
Mas a paisagem é asfixiante
Nuvens passadas que não passam
nem se chamam
Tempestades que se repetem, nomes
que se repetem, nomes, nomes
que não chovem